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Seis e meia


Por piores que sejam as tarefas do dia, nenhuma é mais difícil que a de levantar da cama no inverno. Me sinto quase agredido fisicamente quando o despertador do celular toca avisando que são seis e meia da manhã. O levantar é irrevogável, inadiável, urgente: a decisão de levantar às seis (e tomar café, ler as timelines, comer um sanduíche) ou às seis e meia (e sair sem café, sem ler nada, tendo que fazer tudo correndo) foi tomada na noite anterior. Agora, restam a resignação e a obediência ao relógio, ao implacável passar do tempo.

Dia de ir pra escola. Sempre que não está chovendo é dia de ir de moto. Inevitável passar um pouco de frio nesta época do ano. Jaqueta de proteção, luvas, meião de jogar futebol (saudade), controles dos portões da casa e da escola nos bolsos e vamos. Quando abro o portão, a Lola sai. Nunca vi cachorra mais insuportável: faz buracos pelo pátio, não atende quando chamada e sai correndo pro meio da rua sempre que o portão é aberto (quase foi atropelada umas três vezes, já).

Chego na escola pra mais um dia “normal”: estamos em um misto de presencial e remoto. À escolha das famílias, os alunos frequentam a escola ou têm aulas remotamente. Quanto aos professores, estão divididos entre atender as turmas e planejar as aulas em casa e na escola.

A primeira aula do dia (às sete e meia! Os coitados nem acordaram direito) foi com primeiro ano. Eles estão lendo “Um certo capitão Rodrigo”, excerto de O tempo e o Vento. Minha tarefa é explicar resumidamente a árvore genealógica da família Terra-Cambará (vários spoilers) e pedir que eles façam as suas. A maioria parece se interessar pela história e muitos gostam de sagas (Harry Potter lidera em preferência), vamos ver se o velho Érico vai conseguir encantar mais essa geração.

Depois, mais uma aula pro primeiro ano e o final da manhã é de planejamento. A sala dos professores às vezes se torna angustiante, especialmente na hora do almoço: ainda que o grande refeitório esteja vazio e à nossa disposição, muitos insistem em comer na sala (menor e com menos circulação de ar), e ficam cinco, seis pessoas comendo sem máscaras, uma ao lado da outra. A essa altura do campeonato, pensei que pelo menos os professores já teriam entendido o funcionamento do vírus, mas me enganei. É frustrante.

Depois de comer, volto pra sala, onde fico até as três e meia (horário da próxima aula), preparando materiais e organizando avaliações. De repente, chega uma das monitoras com um bilhete em um envelope bonitinho com uma caligrafia impecável, que dizia algo sobre "um lugar mágico, onde histórias são contadas", etc. Uma pista de algo que eu deveria descobrir. Me passa pela cabeça que duas turmas já escolheram seus paraninfos, mas Amado e Carolina (os nomes são homenagens a Jorge Amado e Carolina de Jesus – vejam a coincidência!) ainda não. Será? Vou à biblioteca pra ver o que acontece. A minha turma favoritaUma das turmas de terceiro ano, a Carolina, está tendo aula. Chego, devolvo um livro, percebo certa movimentação estranha dos alunos, mas nada acontece. Volto pra sala e, mais perto do fim do período, a monitora volta com outro bilhete, “visite o jardim do conhecimento e encontre o dirigível questionador”. Ué. Volto à biblioteca - o “jardim do conhecimento” pode ser outro lugar? Bingo! Dessa vez já estão me esperando, a professora de biologia grava minha entrada, o “dirigível” é um balão de gás, suspenso, que perguntava se eu aceitaria ser o paraninfo da turma.


Trabalhar com educação neste país, na época em que vivemos, é sempre um desafio. Falta reconhecimento de praticamente todos. Das direções de escola, das famílias, dos governos, às vezes dos próprios colegas (alguém mais convive com matemática e natureza acreditando-se superiores a linguagens e humanas?). A volta, apesar de também fria, foi com o espírito leve, com a sensação de quem recebeu muito carinho e teve seu trabalho reconhecido por quem mais importa, que são os alunos.

Chego com tempo (uma meia hora) pra tomar um café com as meninas e dar uns abraços na filhota. Ultimamente ela tem aumentado a frequência das declarações de amor. Que bom, porque depois de ouvir a primeira, sempre fico esperando ansiosamente pela próxima. É aquela situação típica: nunca achei que precisaria tanto de declarações de amor de uma criança de dois anos até ouvir a primeira. Logo depois, mais uma aula, essa de espanhol, para adultos e em casa. Faço a devolutiva da avaliação da semana passada e peço aos alunos que avaliem o curso e façam sugestões de temas, atividades e tópicos para o próximo semestre. Depois da aula, fico mais um tempo no escritório, finalizo a leitura de mais algum artigo pra próxima aula do mestrado e, finalmente, desligo o computador.

São oito e pouco da noite quando terminam os compromissos e começa nossa versão de A Vida é Bela (lembram do filme? Roberto Benigni intepreta um judeu levado junto com o filho a um campo de concentração, e passa os dias tentando fazer com que o pequeno acredite que estão participando de uma grande brincadeira). Não tem sido fácil ter uma criança em casa, possibilitar-lhe as melhores alternativas (dentro de nossas possibilidades) para seu desenvolvimento, ajudar na sua formação enquanto ser humano com alegria, coragem e algum bom humor enquanto somos permanentemente bombardeados com um país que insiste em tornar-se cada vez mais implacável. Muitos relacionam esse caos ético que vivemos ao governo. Me encantaria se fosse apenas o governo. Me encantaria não vê-lo como a representação de um sentimento que já existia e que ainda vai continuar nos acompanhando por muitos anos. Este é um país que não foi pensado para quem mais precisa, e a perspectiva quanto a isso não é nada animadora.

Espero as meninas terminarem o banho pra secar e vestir a Leona, que felizmente está de muito bom humor. Depois do meu banho ela me chama pra brincar com o Buzz Lightyear e pintar, enquanto cantamos as musiquinhas que ela gosta. O esforço é grande pra afastá-la das telas, mas mais cedo ou mais tarde vem o pedido inevitável (“quero ver um vídeo muito legal, papai”) que aos poucos vai se tornando insistência, até que sua vontadezinha seja feita. Mais um tempo com ela e chega a hora de deitar, hora de outra vez decidir entre programar o despertador para as seis ou seis e meia.


Reginaldo

 

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